Atravessar o Canal do Panamá.
É um pensamento habitualmente de curta duração e intensidade, porque não passa, geralmente, de um momento de imaginação. Pensa-se em como deve ser interessante fazê-lo.
Desta vez foi diferente porque íamos mesmo atravessar o canal.
A chegada a Shelter Bay Marina, último ponto antes da travessia, contribuiu para tornar tudo ainda mais real:
- 1 - primeiro a subida do Allegro para controlar o estado do anti-fouling e substituir o zinco do hélice;
- 2 - depois a reunião de preparação com o Paul Tetlow onde nos foi explicado tudo o que ia acontecer, com bastante pormenor, no dia seguinte - horas, locais, grupos de barcos, nome dos "Advisers", conduta a ter com eles, canais de comunicação, etc, etc;
- 3 - reunião entre os diferentes barcos que vão fazer a travessia abraçados (a travessia faz-se, habitualmente, com os barcos abraçados 3 a 3) para definir quem vai a BB e a EB do barco mais importante (o que vai no meio, habitualmente um catamaran), como se prepara e executa o "abraçar" dos barcos, quem fornece as defensas, quem fornece os cabos;
- a entrega nos barcos dos cabos de nylon que vão serão utilizados pelos "line handlers" e dos pneus que servirão de defensas para o lado de fora dos barcos de fora (para não riscar o casco em caso de qualquer problema).
No dia seguinte a manhã passou-se na preparação final dos barcos.
Pelas 15:15 estávamos a caminho da zona de fundeio F. VHF canais 72 e 12 e pedido de autorização para cruzar o canal para nos dirigirmos para a zona F e fundear.
Pelas 16:30 os Advisers estavam a bordo dos diferentes barcos e a explicação do que se ia passar tinha sido dada. O "nosso" chamava-se Osvaldo e achou óptimo o jantar que lhe preparámos - bacalhau espiritual. Comeu, repetiu, tirou uma fotografia que enviou à Mulher e escreveu a receita!
Já íamos, entretanto, a caminho, as eclusas estavam mais perto. Com vento moderado de N, tivemos frequentemente que meter marcha à ré para diminuir a velocidade.
Progressivamente fomos tomando as posições indicadas, nós paralelamente e a BB do "Afar VI" que ia no centro, o Indra a EB (não pertence ao Rally).
Então, de repente, tudo começou a acontecer - às ordens dadas pelos Advisers todos começaram a trabalhar como se nunca tivessem feito outra coisa. No convés, do lado de dentro dos varandins todos colaboravam, passando cabos da proa de um dos barcos para a popa do outro, cabos da proa de um para a proa do outro e da popa de um para a popa do outro, tal como tinha sido combinado na reunião de véspera, aproximando e prendendo os 3 barcos como se fossem um só. O governo dos 3 barcos era agora mantido pelo motor do central e corrigido pelos motores dos outros dois, encaminhando-nos para a entrada da eclusa onde entrámos bem alinhados. Já lá dentro foram feitas as últimas correcções antes dos Line Handlers do canal lançarem, sobre o convés, os cabos que depois usaram para recolherem os outros cabos de nylon de grande bitola. Os três barcos abraçados são mantidos em posição na eclusa pelos 4 cabos de nylon de grande bitola - dois vão para a proa de cada um dos barcos laterais e dois para a sua popa. Foram estes 4 cabos de nylon que foram depois utilizados para imobilizarem e manterem parado o grupo de três embarcações.
Agora tudo estava pronto para elevar o nível da água em cerca de 12 metros. A azáfama a bordo dos três barcos parou progressivamente dando a todos a possibilidade de disfrutarem do espectáculo.
A entrada de água processa-se com grande rapidez, dando origem a correntes visíveis que interferem significativamente com a estabilidade dos barcos que às vezes se começam a atravessar, obrigando a correcções nem sempre fáceis de fazer porque têm que afectar os três barcos.
Antes de abrirem as eclusas, os 4 cabos de nylon voltam novamente para cada um dos barcos que se encontram nas extremidades.
Inicia-se depois o caminho até à eclusa seguinte onde tudo se repete para se subirem outros tantos metros e, depois, o mesmo, na terceira.
Assim se completa a subida para o lago Gatun para onde se sai quando se abrem as comportas.
Dirigimo-nos depois para uma zona de fundeio, com sondas sempre acima dos 18 metros. Nessa zona existem duas grandes boias onde os barcos que acabaram esta primeira parte podem ficar, também abraçados, até ao dia seguinte. Foi o que aconteceu, ficámos 4 barcos abraçados numa boia e 4 na outra.
(...)
LA